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Páginas Amarelas |
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 Escritos do Amarelo.
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wQuinta-feira, Novembro 22, 2007 |
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frevo de olinda 1
tou doido pra chegar em olinda
tou doido pra chegar no amparo
tou doido pra chegar em você
tou doido pra ficar no teu braço
tou doido pra chegar em teu cabelo
doido pra chegar no teu rosto
doido pra dançar frevo
doido pelo teu gosto
menina não fique triste no frevo
que que meu dedo já está em riste
menina não fique ao léu que quando ouço frevo
meu dedo já está no céu
tou doido pra chegar no alto
doido pra chegar na tua boca
me desculpe a falta de tato
mal acabei e estou atrás de outra
posted by
YELLOW THREAT at 4:29 PM
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safety belt song
I remember being six
Never thought I'd have to deal with this
Never thought I'd have to deal with this
In my lifetime, in my lifetime, in my lifetime
In my lifetime, in my lifetime, in a life
I remember being eighteen
It was not easy back then
It was not easy back then
Now the kid stopped screaming they can go forever
They got a brand new car they can ride forever
But now the kid stopped screaming nowhere is safe anymore
They got a brand new car but where will they drive?
posted by
YELLOW THREAT at 4:12 PM
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wSegunda-feira, Novembro 19, 2007 |
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we should not read
we should not listen to what these people talk
living is already hard enough
it feels like a string tightening the throat
but it is just the newspapers and the radio
what's good for the sales
is not necessarily
good for me
we should have no respect
for who gets just the sordid facts
and call it reality
we should not listen to what they talk
and what they write we should not read
posted by
YELLOW THREAT at 1:52 PM
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wQuinta-feira, Junho 01, 2006 |
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really do
people talk about me
they really do
people will be mean
and they really mean
I had too much coffee to drink than I should
and the day is just so slow
now in how many places I think I could be
while I just watch the cars go
people think that I'm stupid
they really do
they think I am trying hard
but is just not my goal
posted by
YELLOW THREAT at 11:36 AM
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wQuinta-feira, Setembro 08, 2005 |
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Eu amo meus tênis
Os convidados estão mentindo
As flores estão sorrindo
Tudo isso é lindo
Juntos pra toda a vida
Quando sai a comida?
Dentro do quarto antigo
Os sapatos estão tinindo
As meias estão fudidas
Dentro do quarto antigo
Os sapatos estão tinindo
As calças estão fudidas
Isso deve ser o céu
Champanhe em copo de papel
Quem está pagando as bebidas?
Dentro do quarto antigo
Os sapatos estão tinindo
Mas as camisas estão fudidas
Passo a noite ouvindo
Gritos de gente louca
A paciência é pouca
Deve estar nos genes
Eu amo os meus tênis
Mas odeio as outras roupas.
posted by
YELLOW THREAT at 6:09 PM
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wSegunda-feira, Junho 27, 2005 |
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Ressurgido das cinzas, graças a Bandeira.
Obrigado, Bandeira.
Reentrada.
John revisou os instrumentos dentro da cápsula. Houston enumerava e John dizia "check". Houston eventualmente mudava a ordem esperada da checagem para certificar-se de que John estava são e ciente. Lentamente ele leu para Houston as medidas de todos os ponteiros. Houston se despediu de John, pois agora ele passaria cinco minutos sem comunicação, durante a reentrada.
Começaram a conversar sobre amenidades, simplesmente para preencher o tempo. O filho de John falara suas primeiras palavras. Antes que John soubesse quais foram, Houston virou estática, e John era o homem mais sozinho do universo.
A cabine começou a trepidar cada vez mais enquanto a atmosfera ficava mais espessa. Nuvem negra começou a cobrir os pensamentos de John. As primeiras palavras do seu filho haviam sido classificadas como amenidade. Os filhos do rato de laboratório. Aos olhos da agência a presença paterna na vida de seu filho era apenas uma perda calculada. A cabine esquentava. John era o explosivo de uma bala em direção ao Oceano Pacífico.
Nada perante os homens, nada perante a grandeza do planeta. Balançou a cabeça para afastar os pensamentos obscuros. Começou a checar novamente todos os instrumentos como se seguisse ordens. Leu na ordem do treinamento a medição de todos os instrumentos. E em breve não escutava mais sua voz porque os sons de explosão da reentrada ribombavam dentro da cabine. Agora John sabia que o exterior era um inferno de chamas corroendo o metal da blindagem.
Começou a gritar cada vez mais alto a medição dos equipamentos, que a esta altura não faziam o menor sentido, estavam todos em pane. John era o passageiro de uma pedra flamejante. Começou a ter medo do que estava lendo. A temperatura exterior era absurda, impossível. O altímetro girava vertiginosamente, acelerando a descida daquela banheira em direção ao núcleo do planeta. Ele fora treinado para saber que a incoerência dominaria os instrumentos durante a reentrada, mas e
se?
Pela última vez ele ponderou que não podia ter um colapso nervoso agora. Não agora. Mas então seus gritos viraram um grito só, inaudível, e John começou a despedaçar os instrumentos dentro da cabine, como um último legado,uma última mensagem, como uma pichação no muro de um templo. Uma prova inegável de sua presença. A única lembrança de sua passagem dispensável dentro daquele tubo de ensaio.
John apertou suas mãos contra o rosto enquanto chorava de pavor. Pela dor que estava prestes a sentir, pela falta calculada e esperada que estava prestes a fazer. Pelo nenhum deus que estava prestes encontrar, pela sua história que ninguém contaria. Porque ninguém soube.
As cápsulas exteriores explodiram formando o colchão de ar necessário para a diminuição da velocidade da cápsula. O veículo de John estava sendo freado contra um muro. Neste momento John viu tudo o que foi e o que era nas palmas de suas mãos. Segurou sua consciência com as duas
mãos e soltou pela janela que mostrava os pálidos raios do sol, como quem liberta um pombo.
E viu o pombo se desintegrar no atrito com a atmosfera.
- para Popa.
posted by
YELLOW THREAT at 12:04 PM
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wSegunda-feira, Junho 13, 2005 |
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Coquetel de Lançamento
Uma porra de um limão.
Três anos de desenvolvimento do software e fizeram uma interface verde e um ícone na forma de um limão.
E ele odiava limão.
Páginas e mais páginas de conceituação mal escrita por aquela equipe de designers e publicitários bichas e agora saíam dos bolsos dos investidores todas aquelas faixas verdes e camisas amarelas e todos aqueles litros de soda limonada e rum com gosto de limão.
E ele odiava limão.
posted by
YELLOW THREAT at 4:20 PM
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wTerça-feira, Junho 07, 2005 |
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A vida entremeava todas as palavras do poema, já que foram coletadas dos cartazes que o poeta viu no seu caminho pra casa, mas juntas morriam. O poeta percebeu que o pós-modernismo era um amontoado de referências sem sentido, uma lista sem nenhuma ordem. Estava cansado de fazer odes ao caos. A página era um sonho sem o sono. Uma peça alienígena, sem linguagem para traduzi-la. Foi ao cinema e esperou tanto pelo filme que dormiu no meio da sessão. Como uma criança perdida que só chora depois que está tudo bem, no abraço com a mãe.
posted by
YELLOW THREAT at 2:37 PM
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15 de setembro de 2003:
A raiva acordou
Eu acordei minha raiva em uma sexta-feira
soltei ela no meio da rua da moeda
hoje eu vou matar o meu amor
Traí minha mulher
hoje eu vou mentir pra achar
a verdade dentro de mim
O homem que dormiu tem que acordar
Hoje eu vou trair meu amor
Matei a minha mulher
Um belisco em meu filho é um murro no meu olho
Menti pra o meu filho
Minha raiva acordou
O dono da casa voltou
Matei meu amor
Traí minha mulher.
posted by
YELLOW THREAT at 2:28 PM
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wSexta-feira, Junho 03, 2005 |
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Arquivos do Calhau 3
o silêncio no rádio
3 horas da manhã, silêncio no rádio. O que me acordou foi o trovão ou o alarme do carro? Foi o sonho recorrente. Um espelho e meu filho do outro lado - este não é o meu sonho. Meu sonho é de vales gramados, como eles são do lado de fora da cidade. Mentira. Não lembro do meu sonho.
Agora, o pungente agora de quem sente dor, ou saudade, ou de quem não consegue dormir. Depois do sonho, não-sono. Levanto. Um copo de água e lembro da perseguição. Estou nu na grande-área, e o estádio está cheio. Não.
Volto pra cama. Agora. Agora agora e mais agora.
Eu me lembro.
Que eu era criança e sonhava que podia voar. No pátio da escola eu voava e voava. Acordava feliz. Na verdade vivia feliz. Nesse tempo tudo era meio enevoado, antes que eu soubesse contar os anos. O tempo era uma massa compacta. Eu me lembro. Eu lembro que confundia sonho com realidade, e, um dia, às dez horas da manhã, no meio do pátio da escola, eu corri e tentei voar. Corri feito um doido que só anos depois eu entendi que eu era. Era o fim de uma era, nunca mais sonhei que voava. Anos depois me disseram que os psicólogos dizem que sonhos com vôos, ou água, são comuns nas crianças que tiveram uma gestação tranqüila. Sagrada seja minha mãe, por mais este presente. Papel brilhante e colorido azul, uma caixa de camisa social, cheia de transformers, o melhor presente, de minha tia Alaíde. Naquele ano eu disse alto que aquele tinha sido o melhor dos meus presentes de aniversário e fui repreendido por minha mãe. Eu me lembro. Havia um avião anfíbio azul que era go-bot, não era transformer, mas era enorme. O que eu mais gostava era um jato vermelho, e não me lembro se ele era transformer ou go-bot. Eu me lembro.
3 e meia, o silêncio no rádio. O mesmo sonho e eu ainda não lembro. Garras ao redor do abismo, é escuro lá embaixo. Não. Este sonho é de outra pessoa.
Na cozinha de novo,resolvo comer alguma coisa. Pesada. E quando dormir, vou dormir de decúbito dorsal, pra ver o sonho chegando e depois ele saindo.
Feijoada de lata, assistindo a um filme de Charles Bronson na tv. Se eu tomar coca-cola, vou conseguir dormir? A cafeína só funciona três horas depois de ingerida. Certamente não vai me impedir de dormir agora. Mas será que vai me acordar? Se eu acordar de novo mais tarde, certamente vai me impedir de dormir. Mas daqui a três horas eu vou ter que estar acordado, mesmo.
Desligo a tv enquanto Charles Bronson aponta uma arma pra cara do sujeito que acabou com o amor da vida dele. Amor da vida? Péssima lembrança pra essa hora da manhã, Charlie.
Estou na cama.
Agora agora agora.
Danou-se.
Agora agora agora.
Amor da vida. Se estourar a cabeça de alguém adiantasse, Charlie, eu já teria estourado. Nem que fosse a minha. Mas eu sei que não adianta. Ou assim eu suponho. Eu sei que ela não foi o amor da sua vida, Charlie, e eu sei que ela não vai ser o amor da minha vida. Mas por enquanto ela ainda é, e ela tem sido por muito tempo. Nestes agoras infinitos do meio da noite eu nunca consigo lembrar das coisas boas, e, se lembro de algumas, elas sempre descambam nas lembranças ruins. Brigas sem sentido gritam dentro de minha cabeça varando a noite. Ciúme infecciona as memórias mais doces como se fosse um câncer. E eu vejo de novo o rosto dela, como uma máscara vazia, quando ela estava sem mais lágrimas pra chorar, depois que eu a convenci de que não queria mais nada com ela. E eu ouço novamente, em todos os detalhes, de novo e de novo, ecoando no meio da noite - o meu "beco do crime" - o som do telefonema em que ela me disse que havia dormido na casa de outro cara. Agora, agora e agora. Sempre. O pungente agora de quem sente dor e sente saudade e não consegue dormir.
O irredutível sempre.
6 horas e o rádio grita por quase um segundo. Eu estava olhando pra ele, quando ele tocou. Eu me levanto com a ressaca dos que dormem pouco. Entro debaixo da ducha gelada, depois de ligar o rádio novamente, pra ouvir as notícias da manhã.
Quem mora sozinho fica chato (Menu)
Menu
Menu
Um homem nu
Na tua cama
No visor do meu celular
E eu não tenho nada
Nenhuma chamada
Não atendida
Nenhuma mulher pelada.
ato involuntário
Como eu vou trabalhar a pé, eu vinha descendo a rua pra ir almoçar. O mesmo mendigo de todos os dias estava sentado no mesmo pedaço de rua onde sempre esteve. Deve ter a minha idade, ou deve ser mais moço, e não trabalha, não se ocupa, nunca faz nada, passa o dia sentado no mesmo pedaço de caçada. Ele normalmente estende sua mão e nem chega a levantar o rosto pra mim, pois eu nunca olho.
Hoje eu estava pensando em andar mais dentro da sombra, pra não voltar ao trabalho tão suado, quando ele puxou a minha calça.
Automaticamente eu segurei minha bolsa com as duas mãos, puxei a perna que estava sendo puxada, dei um passo pra trás e o chutei. E percebi a merda que tinha feito. Esses caras que moram na rua não têm nada a perder, ele vai se levantar, me bater e me roubar. Com medo eu dei alguns passos pra trás esperando a reação violenta do mendigo, mas ele me olhou com desgosto, esfregou a parte da perna que eu tinha chutado, olhou pra ela e, de cabeça baixa, começou a chorar como uma criança. Era um choro sentido e baixinho, um choro de amargura.
Eu me arrependi imediatamente do mal que tinha feito àquele rapaz e pedi desculpas. Ele nem olhou pra mim, mas balançou a cabeça afirmativamente. Ele estava morrendo de medo de mim. Eu continuei a andar, olhando pra ele e sentindo pena, enquanto ele continuava seu choro sofrido de humilhação, sem se dar conta da minha presença ou da minha ausência.
Eu almocei em uma padaria e, no fim do almoço, pedi um sanduíche de carne em pão francês, pra viagem, com um copo de café com leite. No caminho de volta eu passei pelo mesmo mendigo, que virou o rosto pra não olhar pra mim. Eu toquei em seu ombro com o saco da padaria e ele olhou desconfiado pra o saco, e não pra mim. Eu balancei o saco, pra que ele percebesse que devia pegar, e ele pegou. Abriu o saco e, ao sentir o cheiro de coloral da carne guisada, abriu um sorriso. Rapidamente se desfêz do invólucro de papel e deu uma enorme mordida no pão.
Comendo de boca aberta, com o canto da boca sujo com o molho da carne, ele abriu um sorriso, me olhou nos olhos e me agradeceu fazendo um "legal" com o polegar da mão livre.
Eu sorri amarelo, deixei o copo de café com leite do seu lado e fui trabalhar. Quase chorei, mas quando a luz do monitor bateu no meu rosto eu esqueci de tudo.
posted by
YELLOW THREAT at 6:21 PM
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Arquivos do Calhau 2
Oficina
Quando foi a última vez que você lembrou de um amigo seu, matou aula e resolveu ir gastar 40 reais pra comprar um presente pra ele, chegando na loja descobriu que custava 100 e comprou assim mesmo?
Provavelmente nunca.
Nem eu.
Nunca comprei nada PRA MIM que eu pensava que custaria 40 e custava 100.
Meu carro precisava de alinhamento e de troca de óleo.
Passei numa oficina em Boa Viagem, com um daqueles bonecos infláveis na frente:
.\|/..._|/...\|_...\|/
..|......|.....|.....|
Quase não dava pra entrar carros, de tanto cartaz que tinha na frente. Um dos quais dizia:
TROQUE O ÓLEO E GANHE UMA LAVAGEM COMPLETA!!!
E um outro:
PROMOÇÃO ALINHAMENTO E BALANCEAMENTO 25 PAUS!!
Aí eu fui.
O cara botou o carro no porrímetro pra medir a porra lá do ângulo dos pneus.
Vai e vem arretado.
E eu olhando o boneco.
\|_...\|/...\|_..._|/
.|......|.....|......|
Aí o cara me chama com o dedinho (vem cá...). Em todas as oficinas, luthier, assistências técnicas autorizadas em geral do mundo eu acho que isso quer dizer a mesma coisa.
Então eu fui.
"É que a barra da suspensão tá desalinhada."
Eu sei como é isso, que faz um mês que eu tinha feito esse serviço. Malfeito pelo visto. Pra tirar o desalinhamento é necessário um macaco hidráulico capaz de derrubar a maioria dos prédios pilotis construídos no hemisfério sul. E custa entre 30 e 40 reais.
Bom, se não fizer, é o mesmo que não fazer nada. Então faz.
Vai e vem arretado.
._|_...\|/.._|_...._|/
..|......|.....|.......|
(Enquanto isso um mané vai tirar o carro da oficina de ré e dá uma peiada arretada numa van de entregas que estava parada no sinal.)
Aí o caba alinha, balanceia, vai em cima, vem em baixo, acha defeito que só a porra e contando a vida dele. Porque ele quer estudar computação, porque conheceu uma galega na Internet que quer que os pais dela conheçam ele... Nunca se sabe o que se pode achar dentro de uma oficina.
Aí os caras disseram ¿bota ali pra trocar o óleo".
"Bota ali" significava dar uma ré na mesma rua movimentada em que o cara tinha acabado de bater com o civic dele. Eu tenho 11 batidas no currículo. Disse pra eles botarem. Aí o cara levanta o carro (outro cara) e eu de longe.
Vai e vem arretado.
(Vemcá...) com o dedinho.
Eu fui. Ele disse "tá vazando óleo".
Eu disse "puta que pariu".
Mas ele disse que era normal. Todo carro faz isso, com a trepidação os parafusos do carter afrouxam. Basta apertar.
(Você sabia disso? Na verdade, todos os mecânicos do mundo vão te dizer que tem um cuidado imbecil que todos os outros mecânicos deveriam tomar, mas que só ele toma, porque ele é um cara arretado, e é teu amigo. Isso deve ser um sistema organizado da bixiga, com tudo catalogado, e esses caras devem ser autorizados profissionalmente a só revelar um destes segredos, porque eu nunca vi dois mecânicos me ensinarem a mesma coisa.)
Aí ele disse que apertava. Que cara legal!
Lá vai ele tirar a saia do carter (um moio de ferro da gota, melado de óleo)...(ele era meio velho) e tome dizer que por aí só tem cabasafado, que esses cara de oficina é tudo uns ladrão, que se eu fosse numa outra oficina o cara ia trocar o rejunte do carter todo, que se eu fosse na outra oficina o caba ia me cobrar 20 contos... E essa conversa eu acho que quer dizer a mesma coisa em todo antro de marginal desempregado e filhos da puta em geral no mundo. Queria mesmo:
"Me arruma aí o meu da cerveja, que eu tô fazendo um negócio bom aqui pra teu carro."
Se ele soubesse a vontade que eu tava de tomar uma cerveja, ele não dizia isso. Aí eu dei três contos pro porra. (Nesse meio tempo veio um negão contar em detalhes como é que
a mulher de um amigo dele quase chupa o pau dele, e ele não deixou em consideração ao amigo.)
Mal saí de junto, dedinho do vem cá de novo. O filtro do óleo tava podre.
E vamo lavar o carro
Vai e vem arretado.
Aqueta arreda da porra.
O detalhe sombrio é que eu tinha acabado de sair da formatura do meu irmão, estava de camisa de botão de manga comprida, gel no cabelo e sapato social.
\|/..._|/...\|_....\|/
.|......|.....|......|
Fui pagar. Quem veio me atender foi o dono do muquifo, lá.
Fino feito um papel de enrolar prego. Sutil feito um rinoceronte grávido em uma loja de cristais.
Interrompi um esporro arretado que ele estava dando num meganha lá, chamando ele de nego filho da puta e o cara de cabeça baixa, escutando, com tanta atenção e silêncio que a mãe dele devia ser rapariga, mesmo.
Quando eu pedi pra ele ver meu desconto o cara ficou roxo e começou a falar mais rápido e mais alto. Quando eu perguntei por que é que o alinhamento e o desempeno tinham preços separados (Afinal de contas, quem é que vai desempenar o eixo da suspensão sem alinhar depois? Devia ser a mesma coisa.), ele começou a suar muito e eu achei que ele ia ter um infarto.
Deu (com desconto) 96,50.
Eu chorei mais, falei na minha mãe e no meu irmãozinho doente, e na situação difícil que a gente está passando lá em casa, e ele disse que fazia por 95.
Então eu xinguei o estabelecimento dele, cuspi no chão, e ele ofereceu um polimento no carro recém-lavado se eu pagasse 96,50. (Quanto devem custar duas patadas de cera? Sessenta centavos?)
Tá bom. Paguei os 96,50.
Saí da oficina esperando um agradecimento do meu amigo carro, e ele estancou.
Agregando Valores
Maria Lúcia não tinha sabia ao certo qual era o diferencial do seu produto, se é que havia um. Talvez a quantidade de clientes que ela mantinha fosse a quantidade normal, para os outros. Ela nunca podia confiar nos dados que vinham do mercado, por isso não sabia.
O que ela sabia, com certeza, era que, embora seus clientes fossem fiéis e assíduos, seus lucros eram insuficientes.
Então Lúcia chegou à conclusão lógica de que precisava mudar o seu modelo de negócio. Decidiu investir mais em promoção e publicidade. Mas isto a levava a outro dilema.
O produto que Lúcia vendia era um serviço, e ela era a encarregada por sua execução e manutenção. A bem-vinda assiduidade dos clientes não era suficiente para fazer com que Lúcia lucrasse, porém tomava-lhe todo o tempo de trabalho. A promoção, então, não deveria ter como objetivo angariar mais clientes, e sim definir diferenciais no serviço que Lúcia prestava, para que ela tivesse respaldo para aumentar seu preço.
Por isso Lúcia estava procurando identificar um diferencial e não conseguia. Tentou, então, buscar algo que era padrão no mercado.
O anúncio de jornal que ela leu na segunda-feira seguinte chamava estrangeiras para uma sessão de fotos que seriam publicadas na Internet. Lúcia ligou para o número impresso no anúncio, e marcou uma entrevista para o dia seguinte, falando com um homem que tinha sotaque estrangeiro. O preço oferecido era pouco, mas ele disse que o site que hospedaria as fotos era destinado ao público internacional. Bem, de qualquer forma era um começo.
Quando Lúcia decidiu abandonar o curso de marketing, pensou que a vida seria fácil, mas não foi. Então, depois, quando ela decidiu viajar para continuar seus estudos e arrumar um trabalho que pagasse em dólar, ela sabia que não seria mais tão fácil. Achou que tivesse aprendido a lidar com as dificuldades da vida, só que tudo foi bem pior. Então pensou que acharia alguma facilidade em tornar-se prostituta em Los Angeles, por ser brasileira. Pela primeira vez ela não estava completamente errada. Mas, como a vida de prostitutas iniciantes na capital mundial da pornografia não é nada fácil, Lúcia achou seu caminho, ainda assim, bem mais difícil do que ela esperava.
Lúcia não se achava uma boa prostituta, e, na verdade, não se achava uma boa mulher. Podia entender por que seus clientes faziam o primeiro contato, depois de avaliar sua bunda brasileira, mas não entendia por que queriam continuar encontrando-se com ela, depois. Ela não se considerava melhor nem diferente do que qualquer outra mulher. Então, depois de um tempo, passou a aceitar que as pessoas sentem necessidade de ter sempre um pouco mais do mesmo e se enganarem, achando que estão tendo algo de diferente. Baseando-se nas maravilhas que seus clientes diziam dos seus serviços, e as comparações que os casados faziam dela com suas esposas, Lúcia concluiu que a vida sexual da maioria das pessoas do mundo é muito ruim. E parou de ter vergonha de fazer dinheiro com seu sexo preguiçoso.
Lucy, a brasileira. Eles achavam engraçado o jeito que ela pronunciava, com a tônica na primeira sílaba.
Parou de ter vergonha das gordurinhas, parou de ter vergonha dos faniquitos quando fingia orgasmos, e parou de ter vergonha do choro que vinha quando tinha orgasmos de verdade.
Sim, sempre foi assim. Desde o primeiro namorado, os orgasmos de Lúcia sempre vieram acompanhados de um choro latente, que ela não conseguia explicar. Era sempre acompanhado de um sentimento arrebatador de nostalgia, lembranças de sua infância e seu pai, pena de sua mãe, e saudade. Uma enorme saudade de coisas que ela nunca havia vivido. Alguns de seus clientes estranharam a princípio, mas depois se acostumaram. Outros acharam que a estavam machucando, e por isso mesmo sentiram-se o máximo. E outros, bem, a maioria, na verdade, nunca tinha feito Lúcia sentir coisa alguma.
No dia seguinte ela apresentou-se no endereço combinado, levando os recém recebidos exames de sangue, que outras meninas haviam dito que ela ia precisar, comprovando que não estava doente, e seu amigo travesti Ramón, um mexicano. Também era praxe não ir a um primeiro encontro com produtores sozinha, porque era perigoso.
No caminho Lúcia explicou a Ramón por que ela estava fazendo aquilo, falou do diferencial, do seu modelo de negócio, e Ramón divertiu-se muito. Torcia para que Lúcia se tornasse uma menina "cult".
A empresa era bem pequena, um startup respaldado em investidores marroquinos, ou árabes, Lúcia não entendeu bem. Queriam fazer um ensaio simples, barato e curto. Lúcia achou tudo muito estranho.
O preço que eles queriam pagar era muito aquém do preço do mercado. O agente concordou, em parte, mas argumentou que ela também era uma principiante em produções, e que por enquanto era tudo do que dispunham. Lúcia achou um absurdo, mas acabou concordando. Se não fosse ela, seria qualquer outra, afinal de contas, seu serviço não tinha nenhum diferencial, mesmo...
Ela perguntou quando seria a sessão, e o agente disse que "Imediatamente." Nem Lúcia nem Ramón acharam aquilo correto, mas Lúcia pensou na sua idade, na sua conta bancária, em milhares de coisas, e aceitou. Foram conduzidos a uma sala com uma cama, um iluminador, um fotógrafo, e outro modelo, um rapaz.
Um certo constrangimento permeava todo o ambiente. Lúcia sabia que seria constrangedor, por ser sua primeira vez, mas logo o constrangimento seria suplantado pelo profissionalismo dos outros envolvidos. Não havia profissionalismo algum.
"Comecem", disse o fotógrafo, tomando para si a direção da cena, e começando logo com aquilo tudo. Os modelos despiram-se, e o rapaz estava nervoso. Pediu alguma música, e o fotógrafo colocou um disco que trouxe na bolsa em um aparelho de som que estava em cima de um móvel. Uma coletânea de Siouxie and the Banshees.
Lúcia chegou perto do rapaz, deixando somente o corpo dela roçar um pouco no corpo magro dele. Começou a manipulá-lo e sussurrou no seu ouvido: "Vamos fazer o básico, certo? Como vemos nos filmes. Você faz um oral em mim, fazemos um pouco de papai-e-mamãe, depois anal, e você goza na minha boca, ok? Vamos sair daqui em um instante." O rapaz concordou e começou a se acalmar. Olhava para Ramón e sorria. E Ramón olhava de volta, piscava e mandava beijinhos. Se acalmou muito. Não parava mais de se acalmar. Oh, não.
Era um daqueles débeis mentais que fazem prótese peniana pra fazer filmes. Era enorme. Lúcia torceu pra que ele fosse cuidadoso.
O rapaz começou com o combinado. Oral. Mas ele não estava apenas posando, como Lúcia sempre achou que faziam em sessões de fotos, ele estava fazendo. Ela pensou em reclamar, mas ninguém reclamou, ninguém pensou o mesmo, achavam tudo normal. Lúcia percebeu que nenhum deles havia feito nada parecido, antes. Um bando de amadores trancados em uma sala, com um pênis enorme... Que ótimo!
O fotógrafo só abriu a boca pra pedir alguma troca de posição quando começaram com o coito propriamente dito, e o rapaz estava completamente deitado em cima de Lúcia, tapando todos os ângulos para a genitália. Como demoraram um pouco, Lúcia sentiu que estava começando a gostar, embora, realmente, machucasse um pouco às vezes. Mas ela não pediu pra ele parar.
Quando começaram com o sexo anal, doeu bastante, e Lúcia deixou sair um grito. Todos gostaram. Então ela agüentou. E o fotógrafo tirou várias fotos de suas caretas, e reclamou quando ela ia enxugar da testa seu suor frio. Raiva. Ela sentiu raiva, então. Ele não lembrou nem de lubrificar! E ninguém notou. Ninguém notou! Lúcia sentia um grande calor crescendo, e agora estava decidida a acabar com aquilo do jeito que eles quisessem, só pra provar que podia. Então percebeu o que estava acontecendo.
Um orgasmo se aproximava.
E Lúcia pensou "Não! Se eu começar a chorar vão parar tudo, cancelar tudo, nunca mais vão me chamar!" Tentou concentrar-se em outra coisa. Sempre lembrava que devia pensar em futebol, que era o standard pra os homens brasileiros, mas Lúcia não gostava de futebol. Outra coisa, outra coisa. "Siouxsie and the Banshees!" Estava tocando "Happy House". E Lúcia tentou pensar na música, será que aquela guitarra era de Bob Smith, ainda, ou ele não estava mais na banda? Só os ingleses pra fazerem uma música tão infantil soar tão doentia, não estava adiantando, a música falava de alegria, dor e gritos! Estava vindo! Será que esse idiota trouxe exames também? Dor. Seu pai pegando firme no seu braço e depois dando um beijo terno no seu rosto, sua mãe presa aos filhos e ao marido, dor, quanta dor! Viu a si mesma menina, assistindo a tudo aquilo. Começou a chorar aos berros.
E o rapaz apontou para seu rosto e gozou. Lágrimas e esperma, que vergonha. Ele segurava os braços de Lúcia pra que ela não limpasse o rosto.
Quando Lúcia se refez, todos estavam sorrindo. E o iluminador e Ramón até ensaiaram alguns aplausos. Todos adoraram. Cumprimentaram-na, e ajudaram a se levantar. O fotógrafo não se cansava de falar sobre as fotos que tirara de seu rosto, no final. Com o tempo, sua vergonha cedeu e ela sorriu. Saiu do estúdio brincando com Ramón, satisfeita e feliz da vida. Receberia um e-mail quando as fotos fossem publicadas, então divulgaria e teria seu diferencial. Mas percebeu que seu maior diferencial não era aquele ensaio estúpido, ele estava guardado nela durante todo o tempo.
Todos os grandes estudiosos do mercado não paravam de dizer isso, e demorou tanto tempo para que Lúcia aceitasse. O maior diferencial que podemos ter é sermos nós mesmos. Explorar as características que o produto já possui, boas ou ruins. Qualquer produto demarca seu mercado, se explorar suas características principais. O futuro era promissor.
No estúdio, acabavam de comprimir os arquivos das fotos. Eles serão enviados por e-mail para o Paquistão, onde ordens criptografadas serão incluídas, para serem postadas aos agentes, burlando a vigilância da CIA.
Joaquim Passeia
Os tempos bons não voltariam.
Joaquim podia apagar o cigarro na sua mão, ou no olho da senhora que passava por ele agora, na rua. Mas desenhou uma linha cinza em um muro molhado.
O chão molhado estragava o seu sapato caro. Será quem alguém na rua notava que o sapato de Joaquim era caro? Pérolas aos porcos. Joaquim coçou a barba de dois dias, elegantemente desleixada? Será que aguém na rua notara que sua barba era elegantemente desleixada?
O diploma de curso superior estava na gaveta de casa e Joaquim nunca havia passado pela polícia. A lei garantia então que Joaquim podia escolher alguém pra matar. Se fosse pego, seria réu primário e responderia em liberdade. Mesmo que fosse preso, iria pra uma cela especial. Pensamentos como este tranquilizavam Joaquim em dias ruins como este.
Parou em uma banca de revistas. "Ei, você, do sub-emprego, ve dá uma carteira de free box antes que eu comece a chutar esta merda de banca e vc tenha que trabalhar um ano de graça pra pagar teu patrão!" não disse. Disse: "Me vê uma caixa de free box, por favor."
Precisava parar de fumar.
Mas que merda... Ele não tinha coragem de encarar sua casa e sua vida, tanto que só parava em casa pra ficar na frente da tv, não tinha coragem de encarar seu corpo, comprando roupas apertadas demais ou frouxas demais pra escondê-lo, não tinha coragem de encarar o gosto da comida, enchendo os sanduíches de maionese e catchup, não tinha coragem de encarar o espelho nem suas noites sem sono, e pra isso bebia todo dia. Por que, então, deveria encarar o ar que respira? O cigarro era o disfarce da atmosfera, que teria o mesmo gosto sempre. E algum dia alguma coisa de muito ruim iria acontecer com Joaquim. Podia ser câncer, um tiro, um atropelamento.
Ele então iria ter apenas um obetivo na vida: sobreviver.
A vida finalmente seria focada. Produtiva. E feliz.
O claro da lua
Desgosto lavava a cara do meu pai na hora do jantar. Enquanto ele comia a comida sem sentir seu sabor. Hoje ele estava calado como eu nunca tinha visto. Em vez de comer as garfadas exageradas dos justos meu pai comia miúdo, com os olhos baixos reparando detalhes, e não fixados na tv, que ele sempre pedia pra aumentar, porque era um pouco surdo. No início desta noite, até a tv fazia um silêncio constrangido. Meu pai levantou um pouco a vista, e notei que ele fitava uma mancha de mofo que se formara na parede, deixada por algum vazamento do telhado, e pelas incomuns chuvas que estavam castigando a cidade nos últimos dias. Meu pai suspirou. Depois me olhou por quase um segundo, mas depois tirou o olhar de mim. Talvez porque tenha lhe dado mais desgosto ainda ter notado que eu estava com a mesma roupa com a qual ele me vira pela manhã, quando saiu para trabalhar. Automaticamente, antes da próxima garfada, ele perguntou se tinha aparecido alguma coisa. Eu disse que não, e continuamos em silêncio. Depois de terminado o jantar, meu pai levantou-se e disse alto, pra os filhos ouvirem, que era melhor a gente arrumar algum país pra ir se orgulhar dele, porque este estava acabado. Depois disso ele foi pra o terraço, como sempre ia depois do jantar, pra ler o jornal do dia. Mas desta vez ele nem ligou a luz. Ficou sentado no escuro, e no silêncio da sua surdez ele focou olhando a luz da lua, que agora aparecia no céu limpo depois de tanta chuva.E que ainda era de graça. E tentando se convencer de que os pais devem ter pelos filhos o mesmo amor que um arqueiro tem à flecha que fabrica.
O claro da lua
Depois foi a vez dela. Ela tirou o fone de ouvidos da cabeça dele e colocou em volta da sua cabeça. Ele deu um gole no vinho e depois voltou a abraçá-la, debaixo do cobertor. A música começou no ouvido dela, e assim ficaram, bêbados e abraçados. Bêbados, com frio e abraçados. Numa praia vazia porque era dia de semana, e choveu o dia todo. Era a primeira vez que ela acampava, ela sempre pensara que ia se achar ridícula acampando. Mas agora ela não achava mais nada. Estava bêbada, abraçada com ele, morrendo de frio e de amor, vivendo um clichê infinito, que parecia saído de uma música de Rita Lee. E se o mundo se acabasse naquele instante, ela não ia se importar. Vendo a luz da lua e ouvindo aquela música. Abraçou ele mais forte. Era a primeira vez de muitas coisas.
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YELLOW THREAT at 6:19 PM
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Arquivos do Calhau 1
A ordem é de cima pra baixo, os mais embaixo são os mais antigos.
Nuvem negra
Hoje eu entendo que tudo o que não pode, vai.
Eu vi o futuro, e havia um, mas era negro.
Hoje eu vi o mundo, e ele estava morto.
Tudo de belo estava fútil e inútil,
Tudo de novo era tolo
e vulgar.
Hoje eu vi o resto, e as coisas mudaram de lugar.
Passou por aqui hoje à noite
Em um desses anos
Espalhados em cima da mesa
Passou por aqui hoje à noite
A mesa de centro da sala
O centro da casa
Uma noite dentro de outra noite
O silêncio dentro do silêncio
A perda dentro de mil perdas
Perdidos no centro da sala
Jogados no meio do centro
Um medo sem o homem
A sombra sem a noite
Passou por aqui hoje
O silêncio de antes da morte.
Takeda
Ser o detentor dos segredos milenares da arte da invisibilidade não tinha nada a ver com o fato de que Takeda agora andava pela rua sem ser notado. Muito para seu desgosto. Eram sete horas da manhã. Mais precisamente, sete horas, oito minutos e vinte e seis segundos da manhã do dia vinte e oito de Março do ano dois mil e três depois de cristo, segundo o calendário cristão. A última vez que Takeda prestara atenção a um relógio foi no ano de mil novecentos e setenta e cinco. Takeda olhara então para o Big Ben, em Londres e, em respeito ao marco lógico que aquele relógio representava, jamais olhara para qualquer outro relógio, preferindo contar mentalmente o tempo, o que o ajudava a manter-se concentrado e desobstruiu seus sentidos para serem canalizados a coisas mais importantes.
Uma moça entregou um panfleto a Takeda, e ele o pegou, sem olhar, pois já conhecia aquela moça e sabia exatamente que tipo de panfletos ela distribuía. Pegou-o não por alguma espécie de interesse, mas porque era o que todos os passantes faziam e a normalidade o ajudava a continuar invisível. Ao invés de pensar em todas estas coisas, Takeda exercitava sua mente catalogando todos os desenhos dos cortes que poderiam ter sido feitos na mão da moça com o próprio panfleto, no momento da entrega, caso ela fosse uma oponente.
Enquanto rastreava no vento traços de perigo, caracterizados pelo cheiro do metal afiado, da vigília noturna, ou a vibração da ameaça iminente que é precedida por um olhar estranho à sua nuca, Takeda esperava o semáforo abrir, junto aos outros pedestres, e sentia-se só. Quisera ele que as obrigações de seu trabalho mantivessem sua mente suficientemente ocupada para que não fosse incomodado por estes sentimentos naturais ao avanço da idade, mas Takeda aprendera que a mente, ao contrário do Universo, é infinita.
A vigília eterna em que sua vida havia se tornado não o transformara em um homem amargo, com o endurecido coração de quem nega seus sentimentos, como é comum que aconteça aos seus colegas de profissão. Exceção à regra, Takeda percebia o padrão que regia todos os eventos do universo, mas doía-o muito não ter com quem partilhar esta sabedoria.
Um reflexo verde em uma poça de lama informou Takeda de que ele poderia andar. Rapidamente checando auditivamente se os roncos dos motores condiziam com o estado de repouso em que eles deveriam estar, Takeda começou a atravessar a rua. Contou quinze automóveis, e o terceiro da segunda faixa estava com a correia do alternador frouxa.
O primeiro passo de Takeda sobre a faixa de pedestres trouxe-lhe um mau pressentimento que não condizia com o estado perfeitamente plausível e quase inofensivo do ambiente, naquela manhã. Ele levantou a cabeça. E viu sua ruína.
Os olhos da lenda fitavam-no. Eram verdes como o oceano profundo, e estavam acesos graças ao contraste com as mechas vermelhas do cabelo de sua portadora, e a cor de seu batom. O sorriso da morte achara Takeda, disfarçado com a beleza das mais delicadas flores, e atravessava a rua em sentido contrário, em sua direção. Takeda antecipou todo o futuro impossível, em que ele daria meia-volta no meio da faixa de pedestres, acompanharia a moça e a interpelaria, perguntando-a se já não se conheciam de antes. Hoje à noite tomariam um café, ou beberiam um pouco, e daqui a alguns meses casar-se-iam. No segundo passo, a mente de Takeda estava ocupada em catalogar todas as formas possíveis que sua amada teria para expressar seus gloriosos orgasmos.
No terceiro passo, Takeda percebeu que já se referia a ela mentalmente como "amada", o que o atirara completamente indefeso para fora da invisibilidade da multidão. O medo de Takeda era infinito como sua mente. Em um segundo de sobriedade entre o terceiro e o quarto passos, ele sentiu o frio olhar em sua nuca e ouviu o silvo da zarabatana. Em seu último segundo de vida dedicou-se a pensar na primeira e derradeira palavra que diria à sua musa macabra, seu feitiço de morte, o amor de sua vida.
Caiu sem vida antes de conseguir dizer alguma coisa. Takeda nunca fora muito bom com as mulheres.
A Ameaça
Os colegas de trabalho estavam almoçando, rindo e conversando alto. Manoel olhou por cima do muro do restaurante. Seguiu os garfos com os olhos esbugalhados. Felipe chamou o garçom. O garçom pediu pra o menino sair e Manoel ignorou-o, ou melhor, entendeu que a interferência do garçom pedia que ele agisse com menos sutileza. Então ele chamou os rapazes da mesa e pediu, claramente, comida. A conversa continuou na mesa.
Doutor Azevedo estava na oficina. Ele conversava animadamente com José, que é mecânico e serviu com Doutor Azevedo no exército, enquanto este limpava o carburador do carro. Doutor Azevedo gostava de mecânica e seria muito prazeroso pra ele para ele dedicar a manhã de sábado à tarefa, mas era também um prazer conversar com seu velho amigo. Sempre começavam falando sobre futebol, ou sobre generalidades, como o tempo ou a situação política, e acabavam relembrando as cachaças que tomavam na época em que serviam. As noitadas e pescarias.
Um pedido de outra mesa chamou a atenção do garçom e Manoel chamou Felipe e seus amigos, cada vez mais alto. Ele tentava ser o mais respeitoso que podia, chamando Felipe de Tio e pedindo comida. A conversa foi silenciada por um apelo mais alto de Manoel, e alguém comentou baixinho que odeia quando está comendo e alguém fica olhando, pedindo comida. Felipe gritou com o menino. "Ei cara! Vá embora, ora porra! Não incomode a gente não!" Manoel ficou sem palavras e saiu. Algumas pessoas na mesa ficaram sem palavras, também, durante algum tempo. Mas outros continuam a conversa de onde parou.
Um agradecimento exagerado atrapalhou a conversa de Azevedo e José. Da porta da oficina, o Delegado Freitas relembrou ao Doutor a gratidão que ela ainda nutria pelo Doutor, por ter tratado de sua sobrinha, anos atrás. Mas o Doutor ficou visivelmente incomodado com a ênfase do Delegado, que durou até o momento em que a limpeza do carburador acabou, e ele entrou em seu carro. O Delegado agradeceu novamente e fez questão de fechar a porta. Reiterou que estará sempre à disposição do Doutor, caso ele precise alguma coisa, incluiu o Doutor à sua família, e despediu-se como se fosse o dono da oficina, deixando espaço para que José mandasse apenas um aceno de despedida. O Doutor partiu, ponderando que cada boa ação merece um castigo.
A conversa já estava restabelecida na mesa, quando um celular tocou. Os clientes procuraram, sorrindo, seus celulares, porque três pessoas tinham os celulares com os mesmos toques. Felipe atendeu o dele. "Alô?" "Fala, rubro-negro", disse Azevedo. "Oi, tio! Diga lá!" "Posso falar muito não que eu estou dirigindo. Passa em José depois, que ele está alinhando e balanceando a vinte reais." "Beleza, tio. Saiu de lá agora, foi?" "Foi. Em casa, tudo certo?" "Tudo. Vai pro jogo mais tarde?" "Vou. Passo pra te pegar que horas?" "Eu não vou tio. Vou sair com Verinha." "Vai furar, né, escroto?" "Vai te fuder, Tio." "Pronto, vou lá então. Não esquece de alinhar teu carro, toma conta daquela porra!" "Esqueço não, tio. Passo lá essa semana." "Tchau." "Tchau." O Doutor parou em um sinal e, enquanto desligava o celular, um moleque mandou um jorro de água com sabão no vidro do carro dele. Não deu tempo pra ele dizer que não queria.
Mirela e Felipe trabalham juntos. E Mirela mora no prédio de dois quartos que fica na mesma rua do condomínio com quatro vagas na garagem, piscina e quadra poliesportiva em que Felipe mora. Felipe não dá carona a Mirela porque Verinha fica com ciúmes. Por isso, do ponto de ônibus, Mirela sorriu e acenou para Felipe enquanto ele saía do estacionamento. Num sinal de trânsito, um pirralho lavou o vidro do carro, irritando Felipe. Não deu dinheiro nem abre o vidro. Meia hora depois, quebrar o braço de um destes moleques caso tentem assaltá-lo em um sinal de trânsito é a fantasia de Felipe, enquanto ele faz musculação.
O Doutor chegou em casa. Cumprimentou baixinho o porteiro que falava efusivamente com ele, sobre o jogo daquela noite. Ele estava checando mensagens no celular. A empregada havia manchado novamente a roupa que passava, e por isso Isabelle, esposa de Azevedo, estava reclamando sem parar com uma amiga, ao telefone. Quando Isabelle pôs o telefone no gancho e foi à cozinha contar isto a Azevedo, ele já havia tomado banho, trocado de roupas e estava na metade do seu jantar. Ele concordou que empregado é foda. Quinze minutos depois, quando Isabelle notou a roupa que seu marido estava vestindo, este avisou à esposa que ia ao jogo. "Com o Felipe", perguntou Isabelle. "Não, vou só." Não sem antes pedir que ele não fosse, Isabelle recomendou cuidado redobrado ao marido.
Gabriel subiu na garupa da moto de Pedro. E eles saíram da favela.
Felipe saiu do restaurante com Verinha, que carregava uma rosa na mão, e contava uma história divertidíssima sobre uma briga que Catarina teve com Hugo. Ela ficou com raiva quando notou que Felipe não sabia que Hugo não é o namorado de Catarina. Catarina teve um rolo com Hugo, e eles ficaram três meses atrás, mas isso foi antes de Hugo ver Catarina ficando com Henrique, e depois Catarina começou a namorar Fábio. Eles entram no carro e Felipe tirou a carteira do bolso e colocou no vão da porta. Eles foram conversando, no carro, e Verinha começou outra história, sobre Rosana, que não gostou do boato que Camila espalhou, na verdade uma interpretação errônea de um comentário que Rosana fez sobre Milena, que, por conta disso, não falava com Rosana há três dias. Pararam na frente do prédio em que Verinha mora, e ficaram dentro do carro conversando mais um pouco. Na verdade, Felipe achou que eles haviam conversado muito naquela noite, e havia decidido recuperar o tempo perdido. Calou a boca de Verinha com um beijo, que não a impediu de continuar falando, durante algum tempo, dizendo "ô amooor, tu nem deixa eu falar, né..." Felipe conhecia bem a rotina. Verinha continuaria reclamando mais um pouco, depois daria beliscões, e quando ela finalmente fizesse silêncio, ele perguntaria "motel?" e ela faria que sim com a cabeça, sem largar do beijo dele, do jeito que ele adorava. Mas Pedro, de cima de sua moto, bateu no vidro do carro com um cano de revolver e disse pra eles descerem, porque ele queria o carro. Eles olharam pro outro lado e viram Gabriel, apontando uma arma pra Verinha. Felipe pediu calma e saiu do carro, rendido. Deu a volta no carro e pegou Verinha pela mão. Ela estava nervosa e tremendo, finalmente calada. Com a aprovação dos assaltantes, eles se afastaram silenciosamente do carro. Só que Felipe disse "minha carteira" e, num reflexo, fez um movimento brusco em direção ao carro. Gabriel atirou em Felipe. Verinha gritou, os assaltantes se apavoraram e subiram na moto, arrancando. Depois de alguns instantes, chegaram os vigias dos prédios, para ver Felipe gemendo e sangrando no chão.
O telefone da mulher do Doutor tocou. Ela disse "ai meu deus quando onde por quê? Não. Não posso chamar Jorge, ele está no jogo, ele não leva o celular porque tem medo de roubarem.." Azevedo estava, então, no meio da geral, agarrado ao seu radinho de pilha. O único espectador com expressão séria, e o único que olhava mais pra o resto do público do que pra o jogo.
"Ei cara diga aí!" disse o Doutor Azevedo entrava no quarto em que Felipe está internado. Trocaram as frases de sempre: "Foi sorte." "O cara errou." "Não levou o carro." O Doutor saiu do quarto e conversou com o outro médico, que está cuidando do sobrinho dele. O pai do Felipe saiu depois. "Olhe, é foda. O cara tá na dele, não tá fazendo mal a ninguém... chega um merda desses e quase mata, por conta de uma merda de um carro." "Mas Felipele vacilou," disse Azevedo. "Ele não devia estar dentro do carro àquela hora." "É, mas é foda. Precisa matar?" retrucou o irmão. "Tem que tomar mais cuidado," disse Azevedo. O pai de Felipe ainda estava inflamado. "Olha, se eu pego um filho da puta desses, deus me livre, porque eu mato. É nessas horas que a gente entende pena de morte, porra, se eu pudesse, esse cara já era." "O importante é que Felipele tá vivo," disse Azevedo, e foi trabalhar.
O Doutor chegou atrasado. Recebeu um telefonema no consultório e ficou falando lugares comuns, como
"é assim mesmo agora." "A gente tem que se isolar pra viver." "O mundo tá muito violento." "Não tem mais condição." "Os caras não têm nada a perder." "Bobeou eles MATAM, agora não tem mais meio-termo, não." "A gente que não faz mal a ninguém tem que conviver com isso." "O que a gente quer é criar os filhos e tem que se ligar pra não morrer." "Ou você mata ou você MORRE." "É a LEI DO CÃO, AGORA." "Vai acabar virando todo mundo assassino." "É. Porque a gente pega um filha da puta desses a vontade é de MATAR, porra..., Vai fazer o quê?" "Chamar a polícia pra prender o cara e em um mês o cara estar na rua de novo, pra matar você, pra seqüestrar tua família?" "É foda. É isso! Bola pra frente." Doutor Azevedo acaba o telefonema e coloca o aparelho no gancho. O ramal interno toca. A secretária diz que tem um senhor querendo falar com ele, e ele pede pra deixar o senhor entrar. O senhor é o delegado Freitas, que aparece na sala. "Eu soube o que aconteceu com o seu sobrinho..."
"Triste, não é não?"
"Pois eu falei com os meninos da 3ª DP. Eles tão investigando, mas acham que não vai dar em nada não que não tem prova, eles não roubaram o rapaz..."
"Não adianta. Quando prende é até pior que eles saem com raiva, deixa pra lá."
"Doutor, o sr sabe que eu gosto do senhor. O senhor me ajudou muito, minha sobrinha..."
"Foi nada de mais, eu já lhe disse."
"Me dê quinhentos reais."
"Hein?"
"Quinhentos reais. A polícia não dá jeito porque a lei atrapalha. Quem são os caras, todo mundo sabe. Me dê quinhentos reais, a gente pega dois meninos da delçegacia, acaba com a história rapidinho. Me deixe retribuir ao senhor."
O silêncio toma conta da sala.
Finalmente o tio de Felipe fala. "Veja bem. Não é assim."
Freitas ri. "E é como?"
"Tem que ter outro jeito"
"Eu pergunto: Como?"
"Matar? Não dá pra dar uma surra nesses caras?"
"Doutor eu vim aqui falar sério com o senhor. O senhor sabe que dando uma surra esses caras vão associar ao senhor e vão atrás pra acabar com a sua família. Mas é isso o que o senhor quer? A gente faz. Quer que mande dar uma surra?"
Silêncio.
"Eu sei o que o senhor quer. O senhor quer que a gente vá lá e faça. E o senhor abra o jornal amanhã e veja lá os caras mortos. Pra gente fazer o senhor quer. O que o senhor não quer é sujar as mãos, mas quer que melhore lá fora. Pensei que o senhor fosse mais homem, doutor."
"Eu só quero é criar meus filhos, porra. Não quero fazer mal a ninguém."
"Mas quer que os filhos da puta morram. Olhe, a amizade é a mesma, mas eu pensei que o senhor fosse mais macho. Passar bem, viu, 'doutor'."
Freitas sai e bate a porta. O vidro de uma moldura de quinta categoria se quebra quando uma cópia do juramento de Hipócrates, que estava pendurada do lado de dentro da porta, cai no chão. O Doutor suspira.
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YELLOW THREAT at 6:14 PM
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Espaço pra meus escritos, depois da morte prematura do Calhau.
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YELLOW THREAT at 6:12 PM
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